Segurança na F-1

8 de ago de 2010

A GPDA e sua fundação

O acidente fatal de Jo Schlesser, em Rouen 1968

A GPDA (“Grand Prix Drivers Association”) foi criada em 1961 para defender os interesses dos pilotos, especialmente com relação aos seus direitos por maior segurança.

Naquela época, ser piloto não era só se preocupar com contratos comerciais, exposição de “bom moço” na mídia e correr. Vimos há cerca de quatro meses atrás o bicampeão mundial Fernando Alonso reclamar do aumento das taxas de “superlicença”, como se fosse fazer muita diferença para eles. Felipe Massa saiu da GPDA logo depois. Dinheiro, meramente dinheiro e uma guerra por poder.

Só que necessidades mínimas eram relegadas, a vida humana valia muito pouco, quase nada. O resultado: um em cada sete pilotos morreu nas pistas nos anos 60 e 70. Vejam uma volta em Nurbugring em 1967 e reparem que aventura era correr naqueles tempos.


Isto sem contar a questão dos carros, extremamente velozes e frágeis. Neste aspecto de segurança, o elo mais fraco sempre foi um: o piloto. Nos anos 60 a escalada de mortes levou lendas como Wolfgang von Trips e Jim Clark, além de talentos como os irmãos mexicanos Pedro e Ricardo Rodríguez, o norte-americano Peter Revson, o inglês John Taylor, o italiano Lorenzo Bandini e o austríaco Jochen Rindt. E foi neste período que a GPDA causou muitos problemas para os administradores de autódromos, a FIA, os construtores e os interesses comerciais. Naqueles tempos, exxistiam verdadeiras pocilgas chamadas de “autódromos“, sem proteção para os pilotos, equipes treinadas de fiscais de prova, equipamentos mínimos de incêndio e de resgate.Corridas em Nurburgring (Alemanha, 23 km)e Spa-Francorchamps (Bélgica, 14 km) eram verdadeiras “pistas da morte” e a GPDA liderou boicotes em 1969 em Spa (que depois reduziu seu traçado para 8km) e Nurburgring (a partir de 1976 e que só voltou a ter corridas nos anos 90 e 2000, já com 4km de traçado). A entidade ganhou força nos anos 70, exigindo mudanças radicais em Nurbugring, que removeu “saltos” que faziam os carros decolarem, além de outras pistas inseguras como Rouen, Bremgarten, Casablanca e Avus.Em Zolder no GP da Bélgica de 1973, Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart e François Cevért reclamam do asfalto, que estava se desmanchando depois de um recapeamento mal-feito. Os organizadores fazem uma nova capa no asfalto, a pista aguenta o tranco no sábado e é liberada para a corrida.

Vejam as imagens:


Um piloto da época se tornaria o ícone desta luta. O escocês Jackie Stewart começaria sua saga a partir de um grave acidente, em 1966 no antigo traçado de Spa-Francorchamps. Isto veremos na semana que vem…Isto vai contra os ideais de fundação da GPDA, há mais de 40 anos. Naquela época, a Fórmula-1 se tornava uma categoria cada dia mais rentável financeiramente e todo mundo queria seu quinhão: construtores, montadoras, administradores dos autódromos, televisão…

Stewart, pioneiro e líder

O lendário Jackie Stewart

Falar em GPDA nos anos 60 e 70 era falar de Jackie Stewart, escocês tricampeão mundial de F-1 em 1969, 1971 e 1973. Falar em segurança nas pistas e em respeito com a vida dos pilotos também. Tudo isto começou em um acidente e um pavoroso resgate, que quase custou a vida do piloto, muito antes dele se sagrar campeão mundial.

Em 1966, no GP da Bélgica em Spa-Francorchamps, ele perdeu o controle de sua BRM em um temporal. Seu carro bateu em um poste telefônico, em um barranco e foi parar em uma fazenda, capotado.

Stewart ficou 24 minutos de cabeça para baixo, preso no carro e com combustível vazando, sem que ninguém tivesse ferramentas para retirar o mesmo do carro. Quem resgatou o futuro cavaleiro da Rainha foram seus colegas Graham Hill e Bob Bondurant, com as ferramentas de um espectador da corrida. Fantástico, né?

Pior foi depois, quando ele foi levado em uma caçamba de caminhonete até o primeiro posto de atendimento, sem nenhuma estrutura. Com o corpo encharcado de gasolina, Stewart ficou em uma padiola no chão, do lado de tocos acesos de cigarro antes de ser transportado.

Vocês acham que terminou? Que nada, a ambulância se perdeu da escolta policial e o motorista não sabia o caminho para Liége, a cidade grande mais próxima. Somente depois de uma segunda ambulância ser acionada, Stewart chegou ao hospital, em precárias condições de saúde. Ele teve de ser levado de avião para a Inglaterra, aonde foi corretamente tratado e ficou sem sequelas.

Depois disto, Jackie Stewart começou a angariar antipatia dos donos de circuitos ao exigir barreiras adequadas de proteção e todas as medidas mínimas necessárias, como capacetes completos e volantes removíveis.


“Eu teria sido um campeão mundial muito mais popular se eu sempre dissesse o que as pessoas gostariam de ouvir. Eu provavelmente estaria morto, mas certamente seria mais popular”, com sua habitual franqueza disse certa vez o lendário escocês.


Porém Sir Jackie Stewart não terminaria a F-1 de maneira feliz

O mestre Stewart e o aprendiz Cevért

Jackie Stewart e François Cevért marcaram época pela Tyrrell na Fórmula-1. Em tempos conflituosos de Fernando Alonso e Lewis Hamilton, sem esquecer a “Terceira Guerra Mundial” ocorrida entre Ayrton Senna e Alain Prost, é quase inconcebível lembrar de uma relação perfeita entre dois pilotos de uma mesma equipe.

Mas era assim que todos consideravam a amizade entre o mestre, o multicampeão escocês Stewart, e o aprendiz, representado pelo francês Cevért. Foi Stewart que viu o talento de Cevért na F-2 e indicou o piloto para Ken Tyrrell, dono da equipe.

Ao assinar contrato em 1970, Cevért faria com Stewart a dupla mais afinada de todos os tempos. Já na segunda temporada, em 1971, chegou duas vezes em segundo lugar e venceu em Watkins Glen nos EUA. Seria sua única vitória na carreira. E o destino lhe seria trágico nesta mesma pista, dois anos depois…

No ano seguinte, sua equipe tinha um carro pouco competitivo, mas ainda assim Cevért chegou em segundo lugar duas vezes, enquanto Stewart foi vice-campeão (atrás de Émerson Fittipaldi) com quatro vitórias. Na temporada seguinte, com um fabuloso Tyrrell 006 V8, Stewart foi campeão com folga e secretamente se preparava para a aposentadoria, em seu 100° GP.

Então chegamos à última prova da temporada, o GP dos EUA em Watkins Glen. Durante os treinos, Stewart sugeriu à Cevért que não fizesse os velozes “S” na quarta marcha, e sim na quinta marcha. Assim teria mais controle sobre o carro no final da sequência de curvas.

Porém Cevért provavelmente seguiu com seu estilo de pilotagem, perdeu o controle do carro e bateu violentamente no guard-rail, capotando por cima deste. Seu carro deslizou sobre as lâminas, destruindo completamente o cockpit e matando o francês instantaneamente.

O primeiro piloto a chegar ao local do acidente foi o brasileiro Émerson Fittipaldi, e Jackie Stewart chegou logo depois ao local do acidente. “Ele estava tão definitivamente morto que sequer haviam removido seu corpo do carro”, disse Stewart.

Depois disto, o piloto escocês deu mais uma única volta, fez a sequência de “S” em quarta marcha e quase perdeu o controle do carro. Assim, Jackie teve certeza da causa do infortunado destino de seu melhor amigo. Desolado, Stewart não participou da prova, deixando a categoria com 27 vitórias (recorde que durou até o final dos anos 80), 43 pódiuns e 17 pole-positions.

“Tinhamos a relação mais perfeita entre companheiros de equipe da Formula 1. Eu era o mestre e ele era o aluno. Uma das coisas que mais queria era que ele passasse o testemunho e ser Campeão do Mundo. Seria o final perfeito de uma história perfeita. Mas o destino não quis assim, e talvez esta foi a maneira de Deus dizer que nada está garantido“, disse Jackie.

Um tributo à amizade:



O mais ridículo é que em 1974, o jovem austríaco Helmuth Koinigg morreu na mesma pista e do mesmo jeito idiota (guard-rail mal fixado). Aí, enfim, arrumaram isto mas dois pilotos tiveram que morrer para que algo fosse feito…

O horror de Montjuich, 1975

As corridas de Fórmula-1 em Montjuich, circuito próximo à Barcelona, sempre foram marcados pelas polêmicas e acidentes.

Em uma pista mal-cuidada, com pouca proteção aos pilotos, em 1969 os campeões mundiais Jochen Rindt e Graham Hill sofreram sérios acidentes depois que perderam o aerofólio traseiro de suas Lotus.

Em outras corridas muitos problemas de segurança e uma péssima pista deixaram todos os pilotos enfurecidos. A falta de cuidado na pista de Jarama não melhorou em nada as condições de prova, e as corridas na Espanha voltaram para os subúrbios da capital da Catalunha.

Naquele tempo, uum símbolo da luta dos pilotos na GPDA era o brasileiro Émerson Fittipaldi. Então bicampeão mundial, Émerson deixou claro que as barreiras de proteção estavam mal-fixadas na pista espanhola.

Os pilotos da GPDA boicotaram a primeira sessão de treinos. E fariam greve se nada fosse feito. Os responsáveis pelo autódromo e mais mecânicos emprestados das equipes passaram a noite tentando arrumar o impossível.

Sob ameaça de um processo judicial e com rumores de que os carros seriam confiscados pela Guarda Civil do Generalíssimo Franco, os pilotos resolveram correr.

Émerson não quis saber: só fez as três voltas obrigatórias e saiu de Barcelona. Simplesmente foi para casa. Na corrida, seu irmão Wílson Fittipaldi e o mexicano Arturo Mezario deram a primeira volta e também deixaram a corrida.

Antes, quatro pilotos, incluindo os futuros campeões Niki Lauda e Mario Andretti, bateram em um acidente da primeira volta. Tal qual a batida de Letho e Lamy no GP de Ímola em 1994, isto era um prenúncio da tragédia.

Então, o desastre: a Lola do alemão Rolf Stommelen liderava a corrida na 26° volta. Seu aerofólio traseiro quebrou e Stommelen bateu em guard-rail`s mal fixados, ricocheteando de volta para a pista. Então voou por cima do outro guard-rail e caiu sobre espectadores e trabalhadores.

O brasileiro José Carlos Pace, que vinha logo atrás, tentou desviar e também bateu. Stommelen quebrou a perna, punho e duas costelas, mas quatro pessoas morreram: um fotógrafo, um bombeiro e dois torcedores. A corrida foi suspensa, bandeira vermelha:

Em 1970, outra imagem da irresponsabilidade que ocorria nas pistas da Espanha. No circuito de Jarama, reparem que um espectador está no meio da curva e quase é atropelado pela BRM do inglês Jackie Oliver, que acerta a Ferrari do belga Jacky Icyx.

Os dois carros pegam fogo, os pilotos saem praticamente ilesos, mas a corrida não é suspensa e os pilotos ficam passando em alta velocidade, no meio da fumaça e dos esforços heróicos de bombeiros. Resumindo, uma palhaçada absoluta:

As corridas de Fórmula-1 em Montjuich, circuito próximo à Barcelona, sempre foram marcados pelas polêmicas e acidentes.

Em uma pista mal-cuidada, com pouca proteção aos pilotos, em 1969 os campeões mundiais Jochen Rindt e Graham Hill sofreram sérios acidentes depois que perderam o aerofólio traseiro de suas Lotus.

Em outras corridas muitos problemas de segurança e uma péssima pista deixaram todos os pilotos enfurecidos. A falta de cuidado na pista de Jarama não melhorou em nada as condições de prova, e as corridas na Espanha voltaram para os subúrbios da capital da Catalunha.

Naquele tempo, uum símbolo da luta dos pilotos na GPDA era o brasileiro Émerson Fittipaldi. Então bicampeão mundial, Émerson deixou claro que as barreiras de proteção estavam mal-fixadas na pista espanhola.

Os pilotos da GPDA boicotaram a primeira sessão de treinos. E fariam greve se nada fosse feito. Os responsáveis pelo autódromo e mais mecânicos emprestados das equipes passaram a noite tentando arrumar o impossível.

Sob ameaça de um processo judicial e com rumores de que os carros seriam confiscados pela Guarda Civil do Generalíssimo Franco, os pilotos resolveram correr.

Émerson não quis saber: só fez as três voltas obrigatórias e saiu de Barcelona. Simplesmente foi para casa. Na corrida, seu irmão Wílson Fittipaldi e o mexicano Arturo Mezario deram a primeira volta e também deixaram a corrida.

Antes, quatro pilotos, incluindo os futuros campeões Niki Lauda e Mario Andretti, bateram em um acidente da primeira volta. Tal qual a batida de Letho e Lamy no GP de Ímola em 1994, isto era um prenúncio da tragédia.

Então, o desastre: a Lola do alemão Rolf Stommelen liderava a corrida na 26° volta. Seu aerofólio traseiro quebrou e Stommelen bateu em guard-rail`s mal fixados, ricocheteando de volta para a pista. Então voou por cima do outro guard-rail e caiu sobre espectadores e trabalhadores.

O brasileiro José Carlos Pace, que vinha logo atrás, tentou desviar e também bateu. Stommelen quebrou a perna, punho e duas costelas, mas quatro pessoas morreram: um fotógrafo, um bombeiro e dois torcedores. A corrida foi suspensa, bandeira vermelha:

Em 1970, outra imagem da irresponsabilidade que ocorria nas pistas da Espanha. No circuito de Jarama, reparem que um espectador está no meio da curva e quase é atropelado pela BRM do inglês Jackie Oliver, que acerta a Ferrari do belga Jacky Icyx.

Os dois carros pegam fogo, os pilotos saem praticamente ilesos, mas a corrida não é suspensa e os pilotos ficam passando em alta velocidade, no meio da fumaça e dos esforços heróicos de bombeiros. Resumindo, uma palhaçada absoluta:

As corridas de Fórmula-1 em Montjuich, circuito próximo à Barcelona, sempre foram marcados pelas polêmicas e acidentes.

Em uma pista mal-cuidada, com pouca proteção aos pilotos, em 1969 os campeões mundiais Jochen Rindt e Graham Hill sofreram sérios acidentes depois que perderam o aerofólio traseiro de suas Lotus.

Em outras corridas muitos problemas de segurança e uma péssima pista deixaram todos os pilotos enfurecidos. A falta de cuidado na pista de Jarama não melhorou em nada as condições de prova, e as corridas na Espanha voltaram para os subúrbios da capital da Catalunha.

Naquele tempo, uum símbolo da luta dos pilotos na GPDA era o brasileiro Émerson Fittipaldi. Então bicampeão mundial, Émerson deixou claro que as barreiras de proteção estavam mal-fixadas na pista espanhola.

Os pilotos da GPDA boicotaram a primeira sessão de treinos. E fariam greve se nada fosse feito. Os responsáveis pelo autódromo e mais mecânicos emprestados das equipes passaram a noite tentando arrumar o impossível.

Sob ameaça de um processo judicial e com rumores de que os carros seriam confiscados pela Guarda Civil do Generalíssimo Franco, os pilotos resolveram correr.

Émerson não quis saber: só fez as três voltas obrigatórias e saiu de Barcelona. Simplesmente foi para casa. Na corrida, seu irmão Wílson Fittipaldi e o mexicano Arturo Mezario deram a primeira volta e também deixaram a corrida.

Antes, quatro pilotos, incluindo os futuros campeões Niki Lauda e Mario Andretti, bateram em um acidente da primeira volta. Tal qual a batida de Letho e Lamy no GP de Ímola em 1994, isto era um prenúncio da tragédia.

Então, o desastre: a Lola do alemão Rolf Stommelen liderava a corrida na 26° volta. Seu aerofólio traseiro quebrou e Stommelen bateu em guard-rail`s mal fixados, ricocheteando de volta para a pista. Então voou por cima do outro guard-rail e caiu sobre espectadores e trabalhadores.

O brasileiro José Carlos Pace, que vinha logo atrás, tentou desviar e também bateu. Stommelen quebrou a perna, punho e duas costelas, mas quatro pessoas morreram: um fotógrafo, um bombeiro e dois torcedores. A corrida foi suspensa, bandeira vermelha:



Em 1970, outra imagem da irresponsabilidade que ocorria nas pistas da Espanha. No circuito de Jarama, reparem que um espectador está no meio da curva e quase é atropelado pela BRM do inglês Jackie Oliver, que acerta a Ferrari do belga Jacky Icyx.

Os dois carros pegam fogo, os pilotos saem praticamente ilesos, mas a corrida não é suspensa e os pilotos ficam passando em alta velocidade, no meio da fumaça e dos esforços heróicos de bombeiros. Resumindo, uma palhaçada absoluta:



Lauda e os quatro salvadores

Continuando a série sobre a segurança nas pistas da F-1 nos anos 60 e 70, vamos contar um incidente de 1976, envolvendo o futuramente tricampeão mundial Niki Lauda. Outra vez a GPDA foi incapaz de superar os interesses corporativos aconteceu no chamado “The Green Hell” (O Inferno Verde), os 23km de Nurburgring.

Desde 1969, os pilotos fizeram dezenas de solicitações para melhorar as condições de atendimento na gigantesca pista alemã. Nada de realmente importante foi feito além do fim de alguns “saltos” na pista. Olhem imagens do GP de 1973 e imaginem o risco dos pilotos, a mais de 300km/h nesta pista perigosíssima:





Em 1976, o austríaco Niki Lauda, da Ferrari, era o líder do Campeonato. Atual campeão, o piloto tinha o dobro de pontos do segundo colocado, o sul-africano Jody Scheckter. Antes do GP da Alemanha, disputado no “Nordschleife“, como era chamado o antigo traçado de Nurburgring, o austríaco foi um dos maiores críticos às condições de segurança da pista. E acabou se tornando sua última vítima…

Lauda liderava na terceira volta quando teve uma suspensão traseira quebrada. Ele bateu no barranco e voltou para a pista, já com o carro em chamas. Para piorar, foi acertado pelo norte-americano Brett Lunger e pelo alemão Harald Ertl, enquanto o britânico Guy Edwards desviou e o italiano Arturo Mezario parou para ajudar no socorro.

Com o fogo alto, os fiscais não conseguiam debelar as chamas, enquanto consciente, Lauda estava preso no carro.

Então, em um ato de supremo heroísmo, Lunger pulou nas chamas e puxou Lauda pelos ombros, enquanto Mezario desafivelava o cinto da Ferrari. Lunger e Lauda rolaram pela grama, longe do fogo. Isto está bem claro no vídeo abaixo, a partir do instante 1min12s:



Lauda sofreu várias queimaduras e mais tarde entrou em coma devido aos gases tóxicos inalados e transferidos para o sangue. Chegou a receber a “extrema-unção”, mas se recuperou com graves cicatrizes no rosto e na cabeça

O austríaco, então com 26 anos, se recuperou de maneira fantástica, fez cirurgias plásticas e voltou a correr duas corridas depois, chegando em 4° lugar no GP da Itália. Na última prova da temporada, ele desistiu de correr devido às péssimas condições de segurança na pista de Monte Fuji, no Japão. Assim, o britânico James Hunt venceu e se sagrou campeão mundial pela primeira e única vez.

E os quatro heróis? Nenhum deles teve sucesso nas pistas, mas todos receberam reconhecimento mundial pelo ato de bravura.

Edwards recebeu da Rainha Elizabeth a ‘Queen’s Gallantry Medal’, por ato de coragem. Mezario e Lunger, ainda vivos, seguidamente falam daquele dia.

Harald Ertl, que morreu em 1982 em um acidente aéreo, se tornou célebre para todo o sempre por causa de seu visual excêntrico. Mas sobretudo por um ato de coragem.

O corajoso Hailwood no inferno de Kyalami

Vocês conhecem Valentino Rossi, né? Claro que sim, afinal ninguém poderia ignorar um pentacampeão mundial das 500cc nos Mundiais de Motovelocidade. Pois bem, o inglês Mike Hailwood era uma espécie de “Valentino Rossi” das motos nos anos 50 e 60.


Com grande rivalidade contra o mito supremo Giacomo Agostini, o britânico venceu 3 títulos das 250cc, 1 das 350cc e 4 títulos consecutivos das 500cc. Para vocês terem um comparativo, o australiano Michael Doohan conquistou 4 títulos das 500cc enquanto Valentino Rossi tem 5 títulos seguidos na mesma categoria.

Na péssima e perigosa Kyalami de 1972, o inglês Mike Hailwood já tinha corrido em algumas provas de Fórmula-1 entre 1963 e 1965. Ele voltou à categoria em 1971 e em 1972 entraria para a história do automobilismo mundial por um ato de extrema coragem.

Após um acidente de corrida no GP da África do Sul com o carismático suíço Clay Regazzoni, os dois carros se incendiaram. Os fiscais conseguiram apagar o incêndio na March de Hailwood, mas a BRM de Regazzoni estava em chamas, com o piloto suíço desmaiado.

Hailwood enfrentou o fogo, queimou as mãos mas conseguiu desafivelar o cinto do suíço e retirá-lo das chamas. Ambos sofreram apenas queimaduras leves, sem maiores danos. Vejam as imagens heróicas:


Depois da corrida, a esposa de Hailwood viu as imagens e falou para o marido: “Porquê você não me falou que havia feito isto?“. Ao que o piloto inglês respondeu: “Não foi nada, bombeiros fazem isto todos os dias…”

Pelo ato de bravura, Hailwood recebeu a “George Medal”, a mais alta condecoração recebida por um britânico por atos de bravura. Infelizmente, em 1980, um caminhão com um motorista embriagado bateu no carro de Hailwood, matando o multicampeão e sua filha Michelle, de nove anos.

Apenas seis corridas depois do heroísmo de Hailwood na África do Sul, outro inglês, David Purley, receberia uma medalha idêntica, mas em um momento bem mais triste…

O herói eterno David Purley


“Fazer algo bem vale tanto a pena que morrer tentando ainda melhor não pode ser loucura. A vida é medida em realizações, e não em anos.” – Bruce McLaren, 1964.

Esta frase, do grande piloto neozelandês fundador da escuderia homônima, vale para David Purley, um inglês de talento e resultados obscuros, mas dotado de algo que não tem preço: a solidariedade.

No GP da Holanda de 1973, na temerária pista de Zandvoort (que vitimara o piloto Piers Courage três anos antes), este piloto entrou para a história da humanidade graças a um trágico incidente. Durante a prova, seu compatriota, o jovem promissor Roger Williamson, perdeu o controle de sua March após estourar um pneu, bateu em um guard-rail e capotou, se arrastando em chamas de cabeça para baixo por cerca de 100m.

Ao ver o acidente, seu amigo David Purley, piloto da LEC, simplesmente parou o carro, atravessou a pista correndo e tentou desvirar o carro em chamas. Não conseguindo, Purley implorou por mais ajuda dos fiscais de pista.

Mal equipados (sem roupas anti-fogo) e mal preparados para quaisquer atendimentos de emergência, eles em nada puderam ajudar. Enquanto isto, o consciente Williamson berrava: “David, me tire daqui!!!!”

Foi o próprio Purley que pegou o único extintor disponível e esvaziou o mesmo, sem debelar o fogo. Desesperado, ele chegou a ser afastado por um fiscal de pista, que levou um empurrão.

Torcedores igualmente em desespero tentaram invadir a pista para ajudar, mas foram contidos por fiscais de segurança com cães. Enquanto isto, do outro lado da pista, Purley desolado andava de um lado para o outro, buscando alternativas na mais profunda angústia possível.

Estupidamente, o diretor de prova em Zandvoort achou que Purley tinha sofrido o acidente (não percebeu que Williamson estava no carro em chamas) e que não era necessário interromper a prova.

Se isto tivesse sido feito, um caminhão de bombeiros teria andado 150m na contra-mão e apagado o incêndio. O caminhão teve que dar a volta inteira na pista, em velocidade muito lenta, demorando mais de seis minutos nesta ação.

Quando o fogo foi definitivamente apagado, Williamson estava morto por asfixia. O primeiro da “Geração Perdida” (na qual se incluem os ingleses Tom Pryce e Tony Brise) se fora…

Os heróicos esforços de Purley, seu ato de extrema bravura em prol do próximo não ficaram esquecidos. Por estas ações ele recebeu do Governo Britânico a “George’s Medal”, a mais alta honraria do Império dada para um civil por ações de coragem e desprendimento pessoal. E as pistas começaram, definitivamente, a serem dotadas de melhores condições de trabalho.


Alguns anos mais tarde, Purley entrou no Guinness Book (“O Livro dos Recordes”) por causa de um acidente ainda na Fórmula-1. Ele sofreu múltiplas fraturas em 1977 quando o acelerador de seu carro travou e deixou o carro em alta velocidade na rápida pista de Silverstone. Purley bateu em um muro, com o carro desacelerando de 173km/h a 0km/h em mínimos 66cm!

Isto gerou uma força de 179,8G, normalmente fatal para qualquer pessoa. Mas Purley se tornou o primeiro ser humano a sobreviver a esta descomunal desaceleração e força, e foi isto que lhe colocou no “Guiness Book“…

Purley se recuperou das múltiplas fraturas mas não voltou a correr profissionalmente. Ele morreu aos 40 anos em um acidente quando fazia acrobacias com seu biplano para uma competição esportiva aérea…

Senna na luta por Comas

Erik Comas foi um polêmico piloto francês, que correu na Fórmula-1 entre 1991 e 1994. Não muito talentoso, em contra-partida não tinha "papas na língua" e desfiava frases polêmicas, sobretudo em um período no qual o "politicamente correto" era moda na Fórmula 1.

Ele ficou para sempre marcado por uma relação diferente com o tricampeão mundial Ayrton Senna. De solidariedade entre os pilotos. Dois anos antes, no desastroso acidente que o inglês Martin Donnelly foi literalmente jogado no meio da pista em Jerez de la Frontera, Espanha, Senna é o único piloto a ir ao local do acidente e voltar extremamente preocupado.

O primeiro incidente entre o brasileiro e Comas ocorreu nos treinos do GP da Bélgica de 1992. Correndo pela Ligier, Erik Comas bateu forte na sequência de curvas chamada "Blanchimont", na parte mais rápida da pista de Spa-Francorchamps.

Senna passava pelo local, parou na mesma hora, desceu do carro para verificar se Comas estava bem. O francês desmaiou e ficou com o pé no acelerador. Senna chega, segura a cabeça de Comas até que os médicos cheguem, além de desligar a ignição do carro.




Dois anos depois, na trágica corrida de Ímola de 1994, Comas parou na quinta volta com problemas no carro. Na volta seguinte, Senna bateu na Tamburello e passou a ser atendido pela equipe médica. Provavelmente nenhum energúmeno na Larrousse percebeu que a corrida estava em bandeira vermelha (ou seja, SUSPENSA) e liberou Comas para voltar à pista.


O francês vem em alta velocidade e só não causa uma tragédia porque consegue frear a tempo de não atropelar dezenas de fiscais de pista, equipes de resgate e um HELICÓPTERO no meio da pista.

Porém Comas enxerga o capacete ensanguentado e destruído de Senna. Ciente de que as chances eram mínimas e uma tragédia havia acontecido, o francês se sente tão mal com o acidente que retorna aos boxes e se retira da prova. Ao final daquela temporada, sem sucesso nas pistas, Erik Comas se torna piloto de carros de turismo, com sucesso nas 24h de Le Mans.

“Ayrton Senna salvou minha vida, infelizmente, cheguei tarde para salvar a dele” – Eric Comas

Com este exemplo magnífico de como os carros e as pistas podiam ser fatais, mas que o ser humano está acima de tudo isto, encerro a série sobre a evolução da segurança na Fórmula-1. Espero que todos tenham gostado e tenham refletido.

fonte: almanaque do esporte

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