Caracciola

8 de ago de 2010

No ano de 1926 e com grande persistência CARACCIOLA foi para Stutgart para pedir um carro oficial à equipa MERCEDES, para disputar o novo GP da Alemanha. CARACCIOLA já tinha ganho umas provas de pouca importância e talvez fosse capaz de fazer aquilo que dizia e então decidiram emprestar-lhe um carro mas deveria correr como independente e não como piloto de fábrica. Assim se fracassasse ou chocasse, a fábrica não apareceria ao público como responsável do acidente.

E assim foi como CARACCIOLA apareceu para o GP da Alemanha em Avus, em Berlim. Só, acreditando que aquela era a única oportunidade que lhe aparecia na vida, de se experimentar a si mesmo, tomou assento no carro e pilotou tão rápida e furiosamente como lhe foi possível. Começou a cair então uma verdadeira tromba de água. A metade do tempo não podia ver para onde ia, e quando o podia fazer era somente para ver algum carro que tinha chocado e estava a arder ou que se tinha lançado para o público.


CARACCIOLA carecia de experiência, não dispunha tão pouco de nenhuma equipa que das boxes o aconselhasse durante a corrida e não fazia ideía durante a corrida de onde se encontrava. Simplesmente conduzia tão rápido quanto possível, apertando o acelerador uma e outra vez sob espessa chuva, empalidecendo perante o pensamento de que havia outros carros que iam à sua frente. Nunca os apanharia e não haveria nenhuma fábrica que a partir dali lhe voltasse a dar um volante para correr.


E então a corrida acabou, CARACCIOLA passou a meta, molhado até aos ossos, tremendo de frio e, deprimido e perfeitamente convencido de que tinha perdido. Quando lhe disseram que tinha chegado em primeiro lugar, com umas quantas milhas de diferença, nem podia acreditar. Tinha ganho! CARACCIOLA não cabia em si de contente.


Deslumbrado pelo brilho da vitória, continuou a ser valente e pediu à rapariga dos seus sonhos que casasse com ele. Ela vivia num hotel, do outro lado da cidade onde se encontrava a exposição de automóveis aonde ele vendia carros e sempre a amara à distância. Comprometeram-se logo naquela noite. Como motivo daquela vitória , CARACCIOLA abandonou o emprego, daí em diante seria corredor profissional. «Serei o melhor ou abandono as corridas» Prometeu ele a sua noiva.


AS 3 provas chave na sua carreira foram os GP de Mónaco dos anos de 1932, 1933, 1934. Desde aquele GP da Alemanha tinha ganho regularmente. Dois GP da Alemanha, O TT, as 1000 Milhas, no ano de 1932 como a Mercedes deixou de produzir carros rápidos, passou para a Alfa-Romeo. Mas houve luta. Afábrica queria-o mas os outros pilotos não. Todos eram italianos. TAZIO NUVOLARI, MARIO BORZACHINI, GUIUSEPPE CAMPARI.


Corriam todos constituindo equipa e repartiam ganhos proporcionalmente. Pilotavam um carro pequeno e rápido, partindo da base que CARACCIOLA habituado a pilotar os pesados Mercedes, daquela época, não o saberia conduzir. Mas a casa Mercedes já não existia para CARACCIOLA e como de momento não tinha contrato que valesse a pena , assinou o contrato embora naquele ambiente de frieza e desconfiança.


O contrato estipulava que tripularia carros da casa Alfa-Romeo como piloto independente. De modo que, portanto, não pertencia oficialmente à equipa. A 1ª corrida foi as Mil Milhas. Foi à cabeça, durante todo o tempo até Roma e depois talves por alguma falha na condução do carro, avariou em Verona. Quando CARACCIOLA regressou à fábrica discutiu violentamente com CAMPARI.


Os outros Alfa tinham terminado nos 3 primeiros e o sorriso que CAMPARI lhe dirigiu era do mais irónico, como se quisesse expressar com ele(assim o declarou CARACCIOLA mais adiante)

»Sabíamos que não servirias para nada tripulando nossos carros».


A equipa Alfa foi ao GP do Mónaco. Desde o princípio NUVOLARI seguiu na frente e ao fim de algum tempo pode ver o carro de CARACCIOLA que ia atrás do seu. Pouco a pouco ia-lhe ganhando terreno, volta a volta ia tirando uns segundos sobre os outros.. Durante as últimas voltas reparou que o carro de NUVOLARI não seguia bem e cedo ficou a seu lado, roda a roda, tão perto que podia ver o interior do carro do italiano.


A multidão animava-o, enlouquecida de entusiasmo, comtemplando aquela grande competição entre os dois Alfa. Mas então CARACCIOLA começou a preocupar-se com a firme compreensão que existe entre os homens que constituem equipa de pilotos. Há um espírito de equipa que não lhes permite lutar uns contra os outros. Aquele que segue na liderança a meio da prova é o que deve ganhar, enquanto os outros não devem pressionar, visto que isso podia trazer acidentes, permitindo a outras equipas tirar partido disso mesmo.


CARACCIOLA pensava nisso tudo , pilotando seu carro ao lado do de NUVOLARI, pôde por um instante ver o pânico que invadia o rosto de NUVOLARI e lhe desfigurava as feições. Qualquer coisa definitivamente não estava bem no Alfa de NUVOLARI. Podia ter passado em qualquer altura, e porque não? Ele não era membro da equipa, e por outro lado os outros pilotos o tinham recebido mal e por isso não tinha obrigações nem com equipa nem com fábrica.


Mas em vez de passar o carro de NUVOLARI, travou seu carro e deixou que o italiano continuasse à frente e atravessasse a meta em 1º lugar. Quando CARACCIOLA saíu do seu carro , foi violentamente apupadp pela multidão. Foi assobiado e insultado e como tal baixou sua cabeça envergonhado. O público notou que tinha dexado NUVOLARI ganhar, e imaginava que ao correr como independente, não tinha tido a corqagem suficiente para lutar cara a cara com o italiano naquele circuito cheio de curvas perigosas. Em suma era acusado de ser cobarde.


Nunca tinha acontecido a CARACCIOLA uma coisa daquelas, nunca o tinham apupado daquela maneira. Permaneceu durante um momentode pé sobre a pista, imóvel e com a cabeça baixa, ouvindo os gritos e insultos do público. O seu mecânico aproximou.se dele:

«Porque fez isso CARACCIOLA?»

«Não sei?. respondeu em voz baixa.


O chefe das boxes Alfa aproximou-se dele a correr com braços estendidos:

«Foi qualquer coisa de estupendo RUDI, verdadeiramente honrosa de tua parte, e os outros acabam de me dizer agora mesmo se queres tomar parte da equipa de hoje em diante?»

«E CAMPARI...?»

«Foi o próprio CAMPARI quem o propôs. Os outros rapazes estão todos de acordo.»

E daquele modo CARACCIOLA, conseguiu o lugar na equipa da Casa Alfa-Romeo.


IN CARS AT SPEED


ROBERT DALEY 1965





No ano seguinte a ALFA-ROMEO não correu como fábrica.. Caracciola tinha passado o inverno a esquiar perto de Arosa com esposa e o piloto monegasco LOUIS CHIRON. Como este último tinha já deixado de pertencer à BUGATTi, ambos estavam sem carro para o ano de 1933.

Falaram de um planoque CHIRON proôs. O plano era comprar dois ALFA por conta própria e correr sob seus nomes. A equipa se chamaria SCUDERIA CC. Finalmente puseram-se de acordo e adquiriram os dois carros. A MERCEDES emprestou a CARACCIOLA uma grande camioneta para tranporte de carros para onde fosse preciso. O carro de CARACCIOLA era branco atravessado por uma faixa de cor azul, enquanto o de CHIRON era azul cruzado por faixa branca.


Apresentaram-se em Monte-Carlo para tomar parte na corrida uma semana antes. Era o GP de 1933. CARACCIOLA estava muito familiarizado com os ALFA, mas seu amigo CHIRON nunca tinha guiado nenhum antes , por isso foi CARACCIOLA quem se encarregou de ir à frente no circuito, aumentando a velocidade a cada volta que iam dando.


Estava muito satisfeito pela mestria que CHIRON demonstrava ao conduzir o pequeno ALFA. Conforme foram aumentando a velocidade, CARACCIOLA vigiava os movimentos do seu amigo pelo retrovisor. Este último rolava colado a ele, quase tocando a parte da frente do seu carro. Depois de passar em frente do casino e descer a inclinada e turtuosa rua que se interna no túnel, CHIRON desapareceu repentinamente da sua vista.


CARACCIOLA decidiu diminuir um tanto a velocidade da sua máquina e esperar pelo seu companheiro. Ao longo do porto travou seu carro. Nada aconteceu. Mas repentinamente uma das rodas dianteiras bloqueou por algum motivo, e o carro derrapou de lado até ao parapeito de pedra, no lugar conhecido sob o nome de"O recanto do estanque". CARACCIOLA declarou mais tarde que os seus reflexos funcionavam perfeitamente bem naquele momento.


Calculou que naquele momento iria a uma velocidade de 60 milhas e que ao travar não iria a mais de 15 milhas. O carro bateu violentamente no parapeito de pedra e estacou. O piloto sentado ainda na meio destruida cabina exalou um suspiro de alívio. Tinha-se saído bem do desastre. Começou a sair trabalhosamente da carlinga do carro e naquele momento chegou CHIRON, parando o seu carro atrás dele. Houve outros mais que se chegaram para lhe prestar ajuda, mas CARACCIOLA fez-lhes sinal com a mão dizendo que estava bem.



Tirou as pernas por cima da borda do carro e saltou para terra. Quando os seus pés tocaram o alcatrão , desmaiou. Doía-lhe uma perna terrívelmente, assim como todo o corpo. CHIRON mantinha-o em seus braços. Nunca tinha sentido aquela dor tão dilacerante. Meteram-no rápidamente na tabacaria que havia ao lado do lugar aonde o carro tinha batido e sentaram-no numa cadeira, o suor empapava sua testa e tinha que fazer esforços inauditos para não gritar de dor.


Por fim chegou a ambulância e foi conduzido ao hospital. CARACCIOLA foitoda aquela curta viagem a espetar as unhas na madeira da maca que mantinha seu corpo. O raio x demonstrou que partiu o fémur e o doutor opinava que era muito possível que perdesse a perna, e que se milagrosamente aquilo não acontecesse, pelo menos ficaria mais curta do que a outra, mais débil, em resumo uma perna semi inútil.


Puseram-lhe o gesso cobrindo a perna toda. CARACCIOLA tinha um pânico tremendo a que o médico o anestesiassecom clorofórmio e o operasse, pelo qual suportou valentemente todas as manipulações do médico em silêncio, sem pronunciar uma única queixa, embora todos os presentes pudessem ver o sofrimento horroroso que estava a experimentar.


Os directores da ALFA-ROMEO enviaram-no a Bolonha, onde permaneceu seis longos meses ouvindo pela telefonia a reportagem das corridas que se celebravam e que eram ganhas por outros. A maior parte do tempo passou em casa a jogar às cartas com sua mulher. Não era homem para se dedicar à leitura ou a uma conversa entretida. CARACCIOLA não era mais do que um piloto de corridas e durante todo o dia os motores zuniam em seus ouvidos.



Por vezes sentia dores, mas em todo o momento estava furioso por aquele aborrecimento que sentia e que não podia evitar. Contava os dias de repouso um a um, dias que a ele lhe pareciam séculos. Depois de seis meses tirou-se o gesso e CARACCIOLA tratou de andar sem ele, mas quando o fez tornou a sentir uma dor tão aguda na perna que quase perdeu conhecimento. Perante aquela inesperada reacção tornaram a colocar-lhe o gesso e esperando que ao fim de um mês a perna estaria muito melhorada.


Quando lhe foi dada alta no hospital , ele foi com a mulher para a Suiça. Andava com a ajuda de umas muletas e ainda tinha dores de vez em quando, mas dia a pós dia ia fazendo terríveis esforços por fazer algum exercício físico. Até entãonão via progresso algum e desesperava-se perante a lentidão que lhe consumia os nervos. Recebeu então a notícia de que a MERCEDES tornava a apresntar seus carros em 1934. Estaria CARACCIOLA disposto a tripular um deles?


Insistiu uma e outra vez dizendo que sim, que estaria . Mas apesar das suas afirmações a casa mandou um emissário. Quando CARACCIOLA o soube obrigou o médico a que lhe desembaraçasse a perna de todas aquelas ligaduras, e esteve a praticar, passeando um pouco frente ao espelho.


Quando chegou a visita, pretendeu fazer ver que a perna se encontrava em muito bom estado, e até se deu ao luxo de bater fortemente no joelho, sem que o seu rosto mostrasse o mínimo sinal de dor. Muito pelo contrário, sorria alegremente. Nunca se iria embora aquele individuo? O emissário da MERCEDES não sabia os esforços que ele fazia para controlar a dor.

«Então estaria disposto a voltar?» - perguntou ao ir embora.

«Depende das condições!» respondeu CARACCIOLA.

O emissário informou a casa de que não poderia contar com CARACCIOLA. Era evidente que sua perna ainda não estava em condições para se sentar ao volante. O piloto e sua esposa CHARLY partiram para as montanhas. Tanto um como o outro amavam o desporto do esqui, mas agora passavam o dia a jogar cartas. De tarde faziam grandes passeios e sempre com RUDY apoiado no ombro de sua mulher.


Mas nunca queria sair antes do anoitecer, não queria que ninguém o visse naquelas condições, incapaz de dar um passo sózinho.



IN "CARS AT SPEED"


ROBERT DALEY 1965









Uma vez chegaram até ao seu quarto alguns amigos e animaram CHARLY para que os acompanhasse a esquiar um pouco. «Vai com eles».- Disse RUDY - «Precisa de fazer exercício e tomar um pouco de ar, passaste tempo de mais a tratar deste inválido. Por um dia só que fique sózinho não vai acontecer nada.CHARLY, mais tarde descerei à gare para te esperar».

CARACCIOLA assim o fez mas, mas sua esposa não apareceu. Regressou um pouco preocupado ao seu chalet e sentou-se à espera. Passaram as horas. As estrelas fizeram a sua aparição no obscuro firmamento e uma pálida lua no seu quarto minguante iluminou um pouco as brancas montanhas.


Chegou o último comboio daquele dia , quase às 10 da noite. Desde a janela, CARACCIOLA pode ver uma figura humana que subia dificilmente até ao chalet. Inicialmente pensou que fosse CHARLY, mas depois reparou que era um homem, um dos guias de CHARLY, que quase sempre acompanhavam os esquiadores nas suas excursões. CARACCIOLA pressentiu imediatamente que qualquer coisa tinha acontecido e sentiu um estremecimento de pânico, lançando-se rápidamente para a porta. A voz do piloto não era muito firme quando convidou aquele homem a entrar.


-È o Sr. CARACCIOLA?


-Sim.sim.


- Aconteceu um acidente, senhor, uma avalanche de neve, sua esposa...


- Oh! Não...


- A avalanche caíu directamente sobre ela, nada se pode fazer, sua esposa está...e não pode continuar.

- Morta - findou o piloto.


O homem concordou, e permaneceu uns instantes em silêncio, mas quando viu que CARACCIOLA começava a soluçar , abandonou o quarto rápidamente. CHIRON apareceu ali no primeiro comboio que pode tomar ao saber da triste notícia. O seu amigo estava deitado em plena escuridão. Negava-se a comer, a sair e a ver alguém. Durante dias CHIRON esteve com ele tentando fazer o impossível para que CARACCIOLA voltasse a sentir vontade de viver. Não houve nenhuma espécie de funerais. O corpo de sua esposa CHARLY nunca mais se pode encontrar.



CHIRON era o amigo mais intimo que tinha e provávelmente o único. Os seus idiomas eram totalmente diferentes,nada tinham em comum. às vezes conversavamnuma mistura de francês e alemão ou mimicamente. Havia qualquer coisa entre aqueles dois homens que talvez as palavras pudessem ter estragado: a compreensão absoluta daquilo que cada um deles sentia.


Esta compreensão mútua consolou muito CARACCIOLA durante aqueles terríveis dias.Depois CHIRON viu-se obrigado a ausentar-se , mas umas semanas mais tarde estava de volta mais uma vez.


- Bonjour , RUDY - exclamou, ao ver seu amigo. O tom de vozde CHIRON era festivo.- Gostarias de dar uma volta de honra ao circuito de Monte-Carlo antes de começar o GP? Quiseram escrever-te para te propor, mas eu disse: não faz mal, rapazes, eu próprio irei vê-lo e o trarei comigo.


- Preferia não o fazer - disse CARACCIOLA. Quase que não se tinha mexido do quarto desde a morte de CHARLY. CHIRON começou a dar voltas em redor da sala, abrindo com alegre gesto os estores e falando sem parar. CARACCIOLA não o ouvia naqueles momentos. Repentinamente CHIRON agarrou-o por ambos os ombros.

- Tens que sair deste buraco! Gritou-lhe. - Tiveste azar, RUDY, sei-o, mas a vida não acabou por isso. Ela foi-se embora agora e tu ir-te-ás amanhâ , e se houvesse alguma justiça neste mundo há tempo que deverias ter morrido. Mas a vida segue seu curso RUDY. Sabes uma coisa? Diáriamente, no mundo inteiro, os nascimentos ultrapassam os óbitos numa proporção de cem para um.


CHIRON continuou a falar e a falar sem parar, mas CARACCIOLA entendia-o pouco ou nada em absoluto. Mas pelo menos compreendia que havia alguém no mundo que tratava daquilo que lhe acontecia, e finalmente concordou com a proposta de CHIRON. Se aquilo significava tanto para o seu amigo, ele teria que daraquela volta de honra em redor do circuito de Monre-Carlo.



IN CARS AT SPEED


ROBERT DALEY 1965





Chegou à cidade pouco antes de começar a prova. Uma rapariga colocou um ramo de flores dentro do seu carro, e CARACCIOLA começou a dar a volta ao circuito, lentamente.

Por onde quer que passava Caracciola toda a gente se levantava de seus assentos e para o aclamar e animar como se lhe estivessem a dizer que desejavam ardentemente o seu regresso às pistas. O dia era magnífico, soalheiro e quente. O astro rei reflectia a sua poderosa luz na superfície do mar, banhando também os iates que estavam ancorados no porto.


As enormes rochas que rodeavam a cidade estavam cobertas por uma enorme multidão ávida de espectáculo. A Caracciola cheirava-lhe a primavera, amor e vida, além daquela emoção especial que se sente nos circuitos. A perna ainda lhe doía, conduzindo muito devagar para dar uma única volta e quando acabou teve de travar com a perna esquerda. Parou perante as boxes e apeou-se do carro. Aspirou com fruição o cheiro de óleo de castor queimado, que utilizavam os carros de corrida, ouvindo com deleite o suave rugir dos motores. Depois a bandeira caiu e os carros sairam lançados deixando atrás de si o fumo dos seus escapes que lentamente ascendia para o céu. Caracciola sentiu-se reviver.



Depois da morte de Charly não desejava já muitas coisas neste mundo, muito menos o pilotar carros de corrida, mas então reparou que o mundo das corridas era o seu mundo , o ambiente aonde ele únicamente podia respirar e talvez morrer. Sem aquilo não era nada. Desejava mais do que nunca voltar a correr num GP, sentir aquela poderosa força que se mexia sobre as suas mãos apoiar o seu pé no pedal e lançar-se para a frente, tornar a sentir-se como um gigante entre os homens. Correr... Naquela temporada acompanhou Chiron para todos os lados, seguindo os carros, animando seu amigo e tratando de ser útil nas boxes. Eram inseparáveis.


Chiron era um bom cómico por natureza e contribuia com seu bom humor para manter em forma o decaído espírito de Caracciola, por meio de suas pantominas e a sua sempre eterna alegria, enquanto a perna de seu amigo ia lentamente melhorando. No final da temporada, encontrava-se bastante bem para tornar a conduzir outra vez e ganhar de novo o GP de itália, embora sentisse uma dor aguda nas últimas etapas, pelo que se viu obrigado a ceder o volante a Fagioli. Passou o inverno. A perna por vezes ainda lhe doía, tendo ficado marcado por um sinal, que arrastaria até à tumba, pois a perna direita ficaria 2 polegadas mais curta que a esquerda. Caracciola tinha que fortalecer e reforçar os músculos para o que fazia exercício todos os dias.


Os GP eram naquele tempo corridas de grande duração. A perna tinha que estar suficientemente forte para resistir pelo menos cinco horas de competição, durante as quais , possívelmente teria que travar umas 2500 vezes. Chegaria a estar forte alguma vez?, o mundo insistia, que os campeões que por alguma razão se retiram, já não voltam mais. Mas ele Rudolf Caracciola , demonstraria que estavam enganados. E no ano de 1935 ganhou de novo os GP de França, Espanha, Tripoli, Bélgica e Suiça, quatro deles em tempo record, além de ganhar outras provas menores. Foi coroado campeão da Europa. Deve ter sido o melhor, visto que ganhou a maior parte das corridas quase sempre, mas foi um homem ao qual se fez muita pouca publicidade.



Era considerado inabordável e inacessível. Em lugar de escreverm sobre ele, fizeram-no a propósito de Nuvolari, Varzi, Chiron e outros mais. A lenda de que Caracciola era um campeão desaparecido , morreu como que por encanto visto ele estar a correr. Passou a guerra na Suiça. Possuia dinheiro mais uma pensão que lhe enviava a Casa Mercedes, e que era o que o ia mantendo até que devido à guerra, a Alemanha deixou de lhe enviar mais dinheiro. Quando esta acabou foi à América para correr em Indianápolis aonde se estatelou com um carro, permanecendo em coma dez dias. Mais tarde restabeleceu-se. Mas houve alguna amigos que disseram mais tarde que aquele desastre o tinha envelhecido repentinamente, e que passava largas horas a recordar o passado.



Em 1952 quando a Mercedes tornou a correr de novo, embora de forma limitada, Rudy foi chamado à fábrica novamente e apresentou-se no rallye de Monte-Carlo embora pilotando um carro fechado. Tinha 51 anos e apesar de sua idade, pilotando aquele tipo de carros, conseguiu as melhores marcas na corrida. A sua velha habilidade e astúcia que não tinha tornado a praticar nos últimos seis anos, ainda lá estavam... A Mercedes deu-lhe outro carro para correr as 1000 Milhas. Tratava-se também de um carro fechado. Esteve a praticar sobre o terreno durante quase dois meses e algumas vezes descrevia aos homens muito mais novos que ele, como era aquele circuito quando ele tinha ganho a corrida em 1931.



Durante a prova correu bem, com serenidade e perfeito controle, mas parecia estranhar o circuito que então era já bastante diferente de que quando ele tão intimamente o tinha conhecido. Apesar da boa corrida que fez, não conseguiu mais do que um 4º lugar. Mais tarde foi a Berna tomar parte numa prova de carros desportivos. Durante várias voltas ao circuito correu bastante bem, mas a seguir os outros dois Mercedes da Casa ultrapassaram-no. Eram pilotados por Herman Lang e por Karl Kling, ambos tão velhos como ele. Rudy parecia cansado. Na volta 13 despistou-se numa curva e foi bater contra uma árvore quando ia a 95 milhas/hora. O desastre deixou sua perna esquerda tão maltratada quanto tinha ficado a direita. Ficou oito meses com gesso.


Mas nunca mais voltou a correr. A sua última aparição numa corrida foi em 1958 em Le Mans ao dar umas voltas ao circuito conduzindo um antigo Mercedes do ano de 1930. Uns quantos jornalistas que tentaram aproximar-se dele para lhe fazerem umas perguntas, declararam que se mostrou tão inacessível como dantes. Caracciola morreu no ano seguinte de uma doença do fígado, que pode ter sido cancro, ou como alguns disseram, devido aos efeitos do acidente de Berna, sete anos antes. Quando o grande Caracciola morreu tinha 58 anos. Depois do funeral um dos directores da Casa Mercedes foi a sua casa para tratar de que tudo corresse bem. Entre as descobertas que se fizeram, havia uma adega onde Caracciola tinha armazenado vinhos e champanhes desde o ano de 1900.



Era a adega de um autêntico gourmet, própria de um exigentíssimo anfitrião, que desejava obsequiar devidamente seus convidados com o bouquet e paladar de bons vinhos. Mas Caracciola nunca tinha bebido uma gota de álcool e muito poucos visitantes acudiam a sua casa, partindo da hipótese de que ele preferia estar só. Contemplando aquelas poeirentas e inestimáveis garrafas, era possível chegar a acreditar que Caracciola sempre tinha desejado encontrar-se num círculo de pessoas alegres e sociáveis. Mas nunca o soube fazer. A única forma de expressão pessoal daquele formidável condutor era pilotar carros de corrida. Caracciola tinha vivido só e também morreu só.



IN CARS AT SPEED


ROBERT DALEY 1965




Posts Relacionados